segunda-feira, 14 de novembro de 2016

Artista completo, pintor inclusive, Gerald Thomas justifica, neste Entre duas fileiras, o clichê que compara um livro a um quadro – um grande painel, para ser exato. Afinal, as coisas são como são, e associações simples não raro têm o melhor olhar para tramas complexas. Sim, este livro é uma tela de largas dimensões. Mas não se trata de retrato, não um convencional, tampouco de algo comprometido com a realidade, essa careta, muito menos desprovido de movimento – porque Gerald, cujo fascínio pela estrada se revelará nestas páginas, é a própria velocidade, o próprio trânsito.

Não à toa o artista-escritor tanto se refere a “Guernica”, de Pablo Picasso, neste autobiografia. O lance, aqui, é a verdade. Não uma moralista, que julga e se impõe. Mas a única possível a um criador nato: a individual.

Homem do mundo, que passou a maior parte de seus mais de sessenta anos entre Europa e EUA, é dolorida a visão que tem do Brasil – lugar onde um dia chegou a vislumbrar abrigo e futuro para o espírito da modernidade. A desilusão, pois, é um dos eixos desta narrativa. Mas extrapola limites territoriais – para compor ambiciosa leitura do que terá sido uma geração derrotada. Que tudo experimentou. Que em tudo acreditou.


Listado, sem favor, entre os maiores do teatro mundial surgidos na segunda metade do século XX, é desde o palco – para uma plateia de leitores (com a qual interage) – que Gerald pinta a história de seu vilarejo íntimo, batendo-se contra o muro da vergonha, desconfiando das ideologias, jamais se poupando à deformidade, expondo-se em dores, refletindo-se em erros, matando-se em amores (foram muitos, e intensos), abarrotando o mural de sua própria existência com a matéria orgânica sexual-sensual de que é feita a arte em que acredita. Ele botou a cara. Expôs-se como pouquíssimos. E tudo isso com humor, com ironia – aquela, autorreferente, só possível aos mestres prosadores. É impossível chegar ao final deste livro e não dizer, admirado: como Gerald Thomas escreve bem. Porque é do caos – como se fôssemos, leitores e o autor, seres minúsculos e surdos no coração das turbinas de Itaipu – que de repente irrompem as linhas mais límpidas; elétricas, sim, mas transparentes, e então tudo se faz ver.


Carlos Andreazza, editor

Os parágrafos acima são as primeiras letras que o leitor encontra na primeira e segunda orelha da autobiografia de Gerald Thomas “Entre duas fileiras” que a Editora Record lança no Rio de Janeiro, dia 21 de novembro, às 19h, na Livraria da Travessa do Shopping Leblon e em São Paulo, dia 23 de novembro, às 19h, na Livraria Cultura do Conjunto Nacional, em noites de autógrafos com a presença do autor. Em dezembro a versão em inglês “Between two lines” será lançada nos EUA.


Para a quarta capa do livro Fernanda Montenegro escreveu:

– Gerald Thomas existe por sua qualidade demolidora, por sua inconstância, por seu inconformismo, por sua agressividade, por sua descrença cheia de fé, por seu culto à morte pleno da vida, por sua clara e poderosa incongruência, por chorar e rir como criança inocente e nefasta, por amar o próximo odiando, por ser de súbito um bom e adorável menino-amigo, por te acolher e te renegar em segundos, por te amar loucamente, por te maldizer te bendizendo, por ser um monstro de criatividade, por sua diabólica, eterna e inconformada Arte. Arte esta única nos nossos palcos e nas nossas vidas. Que viu ou viveu não esquece.

Nascido em 1954,New York Times enquanto também ministrava workshops no La MaMa, onde adaptou e dirigiu algumas das primeiras das pesadas e dramáticas prosas de Samuel Beckett. No começo dos anos 1980, começou a trabalhar com o próprio Beckett, em pessoa, em Paris (depois de uma longa troca de correspondência entre eles por quase dois anos), adaptando novas ficções do autor. Dentre elas, as mais conhecidas são All Strange Away e That Time, estrelando o legendário fundador do Living Theater, Julian Beck, no seu único papel teatral fora de sua própria companhia, o Living Theater. Em meados dos anos 1980, envolveu-se com o autor alemão Heiner Müller, dirigindo seus trabalhos nos Estados Unidos e no Brasil, e então começou uma longa parceria com o compositor Philip Glass. Em 1985, Thomas formou e estabeleceu a Companhia de Ópera Seca, em São Paulo, Brasil. Desde então, ela tem se apresentado em quinze países com retornos anuais. Com a Companhia de Ópera Seca, Thomas escreveu e dirigiu EletraComCreta, Trilogia Kafka, CarmemComFiltro, MattoGrosso, The Flash and Crash Days, A trilogia da B.E.S.T.A e M.O.R.T.E. Em 1987, ingressou no universo da ópera, dirigindo O navio fantasma, de Richard Wagner, no Theatro Municipal do Rio de Janeiro, e, logo em seguida, a Ópera – em colaboração com Glass – MattoGrosso. Foram mais de vinte óperas em seis países, principalmente Alemanha e Austria, até a remontagem de Tristão e Isolda no Rio em 2003, que resultou num processo que repercutiu no mundo inteiro: “Ato indecente”, porque Thomas mostrou as nádegas em protesto ao coro nazista que berrava “Judeuzinho, volta para o campo”. Em 2009, Thomas escreveu um manifesto dando “adeus” ao teatro. Mas, logo depois, em Londres, ressurge com a London Dry Opera Company, montando Throats e Gargólios. Thomas considera que sua melhor produção tenha sido: The Flash and Crash Days, escrita e dirigida para Fernanda Montenegro e Fernanda Torres (1991); The Ventriloquist, escrita e dirigida para a Companhia de Ópera Seca (2000); Um circo de rins e fígados, escrita e dirigida para Marco Nanini (2005); e a ópera Moses und Aron, de Arnold Schönberg, montada na ópera de Graz, Áustria, em 1998.

As passagens mais recentes de Gerald Thomas pelo Brasil foram: em 2012, com o talk show Gerald Thomas fala e ouve, no Teatro Poeira (RJ); em 2013, para os lançamentos do seu livro Arranhando a superfície, no Rio e em São Paulo; e em 2014, com a peça Entredentes, escrita e dirigida por Thomas e protagonizada por Ney Latorraca, no Rio e em São Paulo.

Especificações técnicas do livro

Entre duas fileiras
Copyright © Gerald Thomas, 2016
378 páginas / Brochura
Editora Record
R$ 59,90

Lançamentos / Noites de autógrafos

21 de novembro, segunda-feira, às 19h
Livraria da Travessa (Shopping Leblon)
Av. Afrânio de Melo Franco, 290, loja 205 A
Rio de Janeiro
 
23 de novembro, quarta-feira, às 19h
Livraria Cultura (Conjunto Nacional)
Avenida Paulista, 2.073
São Paulo

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A obra trata-se de uma antologia poética que reúne 91 poetas de diversos países que falam o idioma português, como Angola, Cabo Verde, Guiné Bissau, Moçambique e Portugal, além do Brasil. O livro conta ainda com a quarta capa de Pepetela, o maior escritor de África.

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crédito: Lia Amorelli

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